sábado, 10 de março de 2012

Metamorfoseando...

A lagarta e a borboleta

(por Kelly C Assis)

Era uma vez, uma lagartinha solitária e esquálida que tortuosamente seguia seu renitente caminho sem cessar. Ela, em sua restrita capacidade de entender o mundo e seu destino, perguntava ao infinito porque entre todas as criaturas hábeis, lépidas, inteligentes, prodigiosas e graciosas da natureza ela teria que acumular tantos entraves para possuir uma existência esplendorosa.

Assim, a passos bem lentos e contumazes ela ia perseguindo o que mais lhe dava prazer em sua pobre vida rastejante: degustar apetitosas e entorpecedoras folhas de lírio.
Neste hábito ela gastou grande parte de sua existência como se isto não só suprisse suas necessidades orgânicas , mas lhe preenchesse um vazio inconsolável que nem mesmo ela conseguia interpretar.

Certo dia, estava em sua cotidiana peregrinação rumo a sua satisfação oral e psicodélica, quando avistou uma pequenina borboleta , já havia visto em sua existência diversas borboletas e além dos lírios, eram aqueles seres voadores surpreendentemente os únicos capazes de encantar e iluminar seus olhos de tal forma, que quando as viam era como se aquelas criaturas quisessem lhe dizer algo muito profético, somente isto a fazia parar, numa admiração tal, como se nada mais ao redor tivesse sentido.

Esta súbita e misteriosa borboleta, possuía algo que a fazia diferente de todas as outras, ela não era a mais bela, nem a esteticamente mais suntuosa, pelo contrário era bem simples em suas formas , mas detinha um brilho que ofuscava muitos olhares e egos , com uma energia tão excêntrica e poderosa que fazia com que cada ato seu, fossem parecidos ao pronunciar maestral das palavras bem ditas – aliás, quem são as palavras....

Contudo, o que a tornava realmente especial para a nossa incompreendida lagartinha, foi a prestimosa atitude de querer saber de sua rastejante vida, dizia que queria entender como era o olhar dos seres terrestres , dos que viam a vida sob um prisma linear – ardilosa borboletinha, até parece que se esquecera de suas raízes-, mal sabia a lagartinha que neste despretensioso encontro oferecido pelo destino guardava muita intenção para responder a suas lamúrias existenciais.

Então, a borboleta e a lagarta começaram a construir uma bela história juntas , num mútuo aprendizado ,onde o principal da relação das duas era entender a vida e seu sentido.. Não mais a lagarta se sentiu tão só e vazia. A borboleta provocava a lagarta incessantemente como a fazê-la encontrar as respostas de suas perguntas dentro dela mesma assim como o preenchimento de seu vazio interior.

A lagarta começou a sentir uma mudança dentro de si e uma pulsão de vida que jamais tinha experimentado, sentia -se mais forte , mais segura e alimentada por um pressentimento de que algo muito bom estava por vir.

Cheia de força e de poder de criação começou a brotar de seu corpinho uma espécie de mel branco que secava logo que entrava em contato com o ar, a borboleta sabendo da real função daquele fluido, decidira revelar a lagarta o que em breve lhe aconteceria ...contando-a sobre sua experiência metamorfoseante.

A lagarta mal pode se conter em suas dezenas de perninhas que tão logo se transformariam em belas asas....

Emocionadas , cada uma foi tomar posse da função que a vida as designou ...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Educar para um novo poder

Educar para um novo poder

Por Marilza de Melo Foucher

O poder existe desde que o planeta Terra foi habitado. E é exercido em todos os tipos de organização social, em toda a relação humana. Não existe sociedade sem poder, mesmo nas formas que a antropologia política chama de primitivas. As relações de poder nascem naturalmente dentro de toda sociedade. O poder político vai surgir de modo universal com o nascimento do Estado, e ele terá a responsabilidade de definir as regras sociais que estabelecem as relações entre os concidadãos. Ele repousa na vontade de organizar, proteger e assegurar a vida em sociedade. Anteriormente, o poder pertencia exclusivamente a alguns homens. Com o Estado, nascem as instituições e os regimes políticos modernos que, por princípio, foram criados para por fim ao sistema de poder pessoal.

O poder é uma palavra completamente rebelde para se definir, ela pode se apresentar como um nome comum que se esconde atrás de um nome próprio PODER. O Poder designa uma capacidade de agir direta e indiretamente sobre as coisas ou sobre as pessoas, sobre objetos, sobre as vontades. O Poder de ter a capacidade de fazer alguma coisa, o Poder de como fazer. O filósofo e psicólogo francês Michel Paul Focault, foi quem melhor analisou como os mecanismos de poder operam na sociedade. Sua reflexão sobre o poder vai muito mais além da esfera publica e política, ele aprofunda a discussão sobre o poder em outros âmbitos da vida social, seja na família, na vida de um casal, na relação com os companheiros (as), nos distintos espaços da vida como no trabalho, no partido político, numa organização social, enfim em qualquer espaço de interação sócio-individual. Para resumir, segundo Foucault o poder estar na base de todas as nossas práticas sociais.

O poder não é algo que possuímos, é uma relação entre duas ou mais pessoas. Logo que as relações se estabelecem – por exemplo, entre dois pareceiros – as forças de que cada um dispõe geram um campo de poder, que pode ser exercido por meio do enfrentamento ou do diálogo, criando-se uma correlação de forças. O poder está presente numa multitude de relações microsociais e jamais será exercido sem resistência. Mas o poder obedece também a regras sociais, umas são institucionais outras sócio-culturais e por vezes interiorizadas pelos indivíduos. Daí certos comportamentos podem ser adotados espontaneamente pela sociedade que passa a julgar normal, por exemplo, certo abuso do poder. O Brasil está cheio de exemplos!

O poder político no Brasil

A sociedade brasileira já foi caracterizada como uma estrutura autoritária de poder. Durante séculos, os governantes bloquearam a participação e criação de direitos. A burocracia brasileira nunca foi uma forma de organização no sentido de agilizar o funcionamento da maquina estatal. Ao contrário, ela instala uma forma de poder altamente hierarquizado. Tal como uma cadeia de comando, quem está no nível superior detém os conhecimentos – que devem permanecer ocultos para seus subordinados, que também têm seus subalternos. Privados de conhecimentos, eles não inovam e nem fazem uso de criatividade, tendo em vista que foram contratados para obedecer às ordens dos escalões superiores. Assim se caracterizou o poder dos altos funcionários públicos, na lógica de que quem detém o saber detém o poder. Quanto mais ignorante é o povo, mas fácil será de manipulá-lo.

O poder burocrático exercido pela hierarquia é dificilmente assimilado com o poder democratizado, no qual, o cidadão funcionário age em função da igualdade dos direitos e se torna um defensor do bom funcionamento da máquina estatal. Infelizmente, essa concepção de burocracia como forma de poder vai se instalar também em alguns partidos políticos.

O poder na historia política do Brasil vai ser praticado como uma forma de tutela e de favor, sem mediações políticas e sociais. O governante é sempre aquele que detém o poder, o saber sobre a lei e sobre o social, privando os governados dos conhecimentos, criando-se assim uma relação clientelista e de favor.

Essa prática de poder vai contribuir para propagação do vírus da corrupção em todos os níveis de poder. Infelizmente, no imaginário popular o poder político vai ser assimilado como sinônimo de corrupção. O abuso de uso da máquina pública faliu o Estado Brasileiro. Há muitos anos, tenta-se restaurar um verdadeiro Estado democrático e cidadão. Este é ainda o maior desafio para a República Brasileira.

Relação de poder

A questão é de saber o que queremos fazer com o poder que cada um de nós pode exercer sobre o outro(a). Como cada um de nós se relaciona com o poder. Hoje, já existem vários estudos sobre como aprofundar o sistema democrático no Brasil. Entretanto, não se analisa como o poder é distribuído na sociedade. As desigualdades sociais expressam também desigualdades de poder.

Conquistamos cidadania civil (direito de votar), mas a cidadania política ainda é restrita. Se ampliarmos os espaços para exercer nossa cidadania, estaremos contribuindo para a emergência de uma sociedade civil mais organizada e combativa. Com isto, teríamos a capacidade de um maior controle social sobre o Estado. Este poder dos cidadãos organizados e legitimamente representados na esfera publica pode ser fértil para o fortalecimento da democracia e quem sabe pode nos educar para mudar nossa relação com o poder e para o seu exercício. Eleger alguém quer dizer exercer um poder de escolher os ocupantes temporários do governo. Entretanto, não devemos esquecer que a democracia é fundada na noção dos direitos entre governados e governantes. Daí a exigência de vigilância do poder político.

O papel preponderante da educação

Vale relembrar o que o filósofo e psicólogo Foucault dizia: “Todo lugar de exercício do poder é ao mesmo tempo um lugar de formação do saber”. A construção do poder democrático e ético no Brasil é um desafio a ser vencido e deveria ser ensinado como educação cívica nas escolas públicas (do ensino fundamental até o ensino médio), para que desde cedo nossos jovens possam aprender o que é o Poder, qual a função do poder político, quais são as qualidades necessárias para o exercício do poder político. Se não somos educados para lidar com o poder, podemos ser facilmente contaminados pelo vírus da corrupção.

Daí a necessidade de os jovens brasileiros aprenderem o que representa o Estado, essa abstração teórica criada pela inteligência humana. O que é um Bem Público, qual a finalidade dos serviços públicos, e, como cidadão ou cidadã, quais são os deveres e obrigações frente à República e como exigir seus direitos. Apreender que é o Estado e sua relação com a sociedade civil é fundamental para construir um poder político democrático. O cidadão não é um consumidor dos serviços prestados pelo Estado, é um sujeito com direitos e deveres. Como concidadãos, eles devem pagar os impostos corretamente, e devem exigir que o orçamento público oriundo dos impostos possa ser aplicado com critérios e honestidade. Os governantes devem ser cobrados se as metas programadas nos planos não forem cumpridas, tendo em vista as verbas alocadas. A constituição brasileira assegura ao contribuinte-cidadão o direito de exigir transparência dos gastos públicos no plano municipal. “As contas dos municípios ficarão, durante sessenta dias, anualmente à disposição de qualquer contribuinte, para exame e apreciação, o qual poderá questionar-lhes a legitimidade, nos termos da lei”.

Enquanto cidadãos (ãs), devemos guardar a capacidade de nos revoltar, de nos indignar frente ao poder corrompido e às injustiças ligadas ao modo de lidar com o poder. Educar-se para o exercício do poder é uma tarefa prioritária para todos que exercem, na esfera publica ou privada, algum poder. E para o cidadão e cidadã, uma boa formação de educação cívica para entender o poder político e a coisa pública passa a ser urgente e prioritário. Para poder decifrar a realidade em que ele vive, saber exercer seus direitos e cumprir com as obrigações face ao Estado democrático.

A verdadeira revolução é aquela que tem um papel construtivo e educador. As reformas não reformam quando os atores do desenvolvimento não estão preparados ao exercício da cidadania e do poder. Nesse sentido, o futuro governo de Dilma, deveria tirar aprendizado da metodologia de educação popular do saudoso Paulo Freire. A educação popular fornece instrumentos pedagógicos para que seja possível codificar e decodificar a realidade brasileira. A luta contra a exclusão começa quando o excluído vira sujeito-cidadão e acaba participando ativamente no processo coletivo de mudanças.

Gibi da Turma da Mônica ...

http://rapidshare.com/files/435339308/Revista_da_Turma_da_M__nica_sobre_drogas_2_.pdf

A borboleta e o passarinho




A borboleta e o passarinho

Por Jéssica Poliane dos Santos

E de ladinho, sussurrou...
Menina, diz para o meu amor:

_ sou colorida e sei voar...
Sei voar e sou colorida...
Que na pétala daquela flor, eu o estou a esperar...

Borboleta graciosa, colorida e parceira do vento...
Para quem, me diga, se refere o seu lamento?

Para aquele pássaro verde e azul que não para de voar,
Por cima das flores desse jardim,
Que você acabou de plantar...

Diga ele, que por causa desse encanto,
Polens já não sei mais retirar...
Vivo em função de treinar a voz,
Para também cantar e encantar!

Borboleta basta apenas voar...
Que as suas asas coloridas,
Vai a ele encantar...
Peça ajuda a flores e ao vento,
E acabe com esse lamento...
Disseram-me, porém...
Que borboleta e pássaros
Não convém...
Tento então piar bem alto
Pra servir pro bem...


Borboleta colorida!
Mas assim não pode ser...
Se o pássaro que voa alto
Não enxergar você!
È que ele é prepotente
E não é de te merecer!!!

Continue colorida entre as flores...
Distribua o pólen
E floresça o mundo
Seja você, e não mais além
Que o mundo colorido
Saberá que é você
E o pássaro prepotente
Reconhecerá,
E saberá te amar...
Assim, simples..você

O poder da imagem

"A grande mágoa de minha vida é nunca ter feito quadrinhos"

Pablo Picasso



UM POUCO SOBRE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS*

por Gilson César Ribeiro, em 2005

Comumente percebidos como arte menor, os quadrinhos não recebem a mesma atenção dada a linguagens como a literatura, a fotografia, o vídeo e mesmo o cinema que, ao contrário do que pensa uma imensa maioria, se alimentou muito mais destes do que o contrário. Para pensarmos em profundidade esta linguagem remontaremos aos primórdios da humanidade quando, ainda antes de chegarem à linguagem verbal, nossos antepassados desenhavam nas paredes das cavernas. Desenhos desse tipo existem nas cavernas de Lascaux, na França, assim como em outros lugares do mundo. Neles, as imagens obedecem a uma seqüência – assim como nos quadrinhos.
Alguns antropólogos dizem que os famosos desenhos nas cavernas pré-históricas eram um "ensaio de controlar magicamente o mundo". Talvez esteja aí uma tendência óbvia entre acadêmicos em atribuir aos primitivos tão-somente motivações supersticiosas, enquanto possivelmente estes nossos antepassados desfrutaram a impressão de construir pequenos mundos, representando graficamente as vivências por que passavam na vida real, no que foi o primeiro exercício de abstração da humanidade. É inimaginável o quanto este acontecimento contribuiu para a evolução do pensamento humano, pois ao se ver ali, desenhado na parede da caverna, correndo com suas longas pernas e empunhando sua lança na perseguição de uma caça ele pôde contemplar o seu próprio modus-vivendi, deflagrando então uma chance inicial de refletir seu estar-no-mundo.

Cada um dos sinais gráficos elementares com que se representam os vocábulos na língua escrita, ou seja, a letra, originou-se da figuração em desenho. Isto é plenamente constatável no antigo Egito e na China, por exemplo. Mas não são os únicos exemplos. Hoje, as letras japonesas (conforme a grafia chinesa de cantão, kanji) são as mais próximas do figurativismo inicial das letras. A figuração gráfica de "gente", por exemplo, é como que um Y de cabeça para baixo, lembrando as pernas e o corpo do elemento indicado em sua própria significação. Grosso modo: para desenvolver a escrita, primeiro a humanidade aprendeu a desenhar. E aprendeu a desenhar antes mesmo de conseguir falar.

No ano 113, Trajano, imperador romano, mandou construir uma coluna, onde suas batalhas eram contadas em vários desenhos feitos em espiral. A coluna hoje leva seu nome e quem a vê pode constatar que as imagens obedecem a uma ordem e estão relacionadas umas com as outras, contando uma história.

No acervo do Trinity College Library, em Cambridge, há uma iluminura do Apocalipse, feita aproximadamente em 1230, em que se vêem textos a "brotar" das bocas de vários personagens, numa ocorrência antiga da idéia moderna de "balão", própria do universo dos quadrinhos. Existem registros parecidos em imagens produzidas por civilizações americanas pré-colombianas.

Na idade média surge a mais popular "história em quadrinhos" do mundo cristão: a via sacra, os passos da paixão de Cristo, que podem ser vistos no interior das paredes laterais de qualquer igreja católica até hoje. Cenas da vida de São Zenóbio, retratadas sequencialmente pelo gênio renascentista Sandro Botticelli, encerram uma narrativa.

Ignorando várias outras demonstrações, para avançarmos muito tempo na História até mais ou menos o ano de 1806, chegaremos a um antecendente da história em quadrinhos sem palavras em O Monje Pedro de Zaildívia captura o bandido maragato
, série pintada a óleo pelo artista barroco espanhol Francisco José de Goya y Lucientes.

Cerca de duas décadas depois, em 1827, o suíço Töpffer, inspirado nas gravuras seqüenciais do artista inglês William Hogarth, do início do século 18, produziu aquilo que mais se aproxima da moderna história em quadrinhos. Goethe foi entusiasta de primeira hora de seu trabalho, encorajando o autor a publicá-las. "São os inocentes antepassados dos sonhos manufaturados de hoje", salientou o historiador da arte E. H. Gombrich.

Töpffer escreveu também um pequeno tratado sobre fisiognomonia, onde, em alguns trechos, parece profético: "Há duas maneiras de escrever histórias: uma em capítulos, linhas e palavras, e a isso chamamos 'literatura'; ou, alternativamente, por uma sucessão de ilustrações, e a isso chamamos 'história ilustrada'. A história ilustrada à qual a crítica de arte não dá atenção e que raramente preocupa os letrados sempre exerceu grande atração. Mais, na verdade, que a própria literatura, pois além do fato de que há mais gente capaz de ver do que de ler, agrada às crianças e às massas, parcelas do público que seria desejável promover. Com a dupla vantagem de apresentar concisão e clareza, a história ilustrada, em condições de igualdade, acabará por suplantar a outra, por dirigir-se com maior agilidade a uma maior número de mentes; e também porque, em qualquer contexto, aquele que emprega um método direto leva vantagem sobre os que falam por capítulos." Walt Disney confirmou tais vaticínios um século depois.

Quase 70 anos mais tarde os métodos de criação artística sofrem transformações radicais com a implantação da indústria, pois a arte passa a ser matéria-prima para um novo tipo de mercadoria a ser oferecida ao público consumidor. Com o desenvolvimento populacional urbano aumenta a necessidade de se transmitir mensagens a um número cada vez maior de pessoas. O jornal expressou nitidamente a nova situação do indivíduo nos grandes centros. O arranjo dos textos, a distribuição das diversas reportagens numa página, a abreviação ou destaque dado a determinados assuntos procuram atender uma nova perspectiva de consumo.

Em fins do século XIX, era acirrada a disputa entre os dois líderes da imprensa estadunidense, Pulitzer e Hearst. Pulitzer deu oportunidade a um desenhista de quadrinhos, Richard Outcault, e passou a apresentar no jornal New York World o seu personagem Yellow Kid. Imagens em seqüencia já existiam na imprensa até então, mas levavam os textos no rodapé das ilustrações. Com Yellow Kid o texto surge dentro da própria imagem, circundado por uma linha que se fechava em um rabicho apontado para a boca do personagem. Tal técnica faz parte das maiorias das histórias até hoje, é o "balão". A palavra torna-se parte da ação e gera um tempo narrativo que subverte a tradição literária. Refinadíssima operação semiótica, em que, se a escrita regressara à sua condição primeva de desenho, a própria palavra escrita, através do recurso-“balão”, torna-se elemento plástico.


*texto inacabado

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Ensino de Geografia: o uso da arte e da Literatura como uma proposta Interdisciplinar


Resumo:
1. A Geografia tem se utilizado cada vez mais das artes, do cinema, da música, e da literatura em suas pesquisas sobre o espaço geográfico. Por isso este estudo busca contribuir para a ampliação do debate sobre o uso destes recursos no ensino de Geografia e como a utilização destes meios nos permite realizar relações interdisciplinares.
Introdução
A realidade é composta por múltiplas relações que só podem ser apreendidas numa visão complexa e não fragmentária. Para superar as dissociações das práticas escolares, é necessária uma atitude interdisciplinar.A importância de construir um ensino interdisciplinar reside na integração do ensino à realidade, formando alunos capazes de compreender a sociedade da qual fazem parte como sujeitos. (ARALDI, 2000)
As percepções que os indivíduos, grupos ou sociedades têm do lugar nos quais se encontram e as relações singulares que com ele estabelecem fazem parte do processo de construção das representações de imagens do mundo e do espaço geográfico. As percepções, as vivências e a memória dos indivíduos e dos grupos sociais são, portanto, elementos importantes na constituição do saber geográfico.
De acordo com PCN's (1999, p.39/40) a Geografia é em si um saber interdisciplinar abandonou a posição de se constituir como uma ciência de síntese, ou seja, capaz de explicar o mundo sozinha, por isso a necessidade de buscar relacionar-se com outras ciências, transcendendo seus limites conceituais sem, no entanto perder sua identidade e especificidade. Na sua busca por pensar o espaço enquanto totalidade, de estabelecer uma unidade na diversidade e de abrir outras possibilidades mediante a visão de conjunto a Ciência Geográfica pode ajudar a romper a fragmentação factual e descontextualizada.
Ainda conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais a Geografia tem buscado um trabalho interdisciplinar, lançando mão de outras fontes de informação e que a relação da Geografia com a Literatura tem sido redescoberta, proporcionando um trabalho que provoca interesse e curiosidade sobre a leitura do espaço e da paisagem.
É possível aprender Geografia desde os primeiros ciclos do ensino fundamental pela leitura de autores brasileiros consagrados — Machado de Assis, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, entre outros — cujas obras retratam diferentes paisagens do Brasil, em seus aspectos sociais, culturais e naturais. Dessa forma acreditamos ser a literatura um importante meio para o entendimento do espaço geográfico como construção histórica.
Também outras linguagens vêm sendo utilizadas pela Geografia na pesquisa sobre a construção/ organização do espaço geográfico. Nos últimos anos a Geografia vem se utilizando das artes, do cinema, da literatura como instrumento de análise do espaço geográfico. Sobre a utilização da arte e da literatura na Geografia Carlos (2002; p. 175 - 176) declara:
A geografia começou a refletir sobre o impensável, até bem pouco tempo. Hoje, muitos trabalhos se debruçam sobre a festa, a música, a literatura, o cinema, colocando em cena a relação entre a geografia e a arte, o que vem abrindo muitas possibilidades de pesquisa.
No entanto a utilização destes recursos na maioria das vezes está relacionado especificamente ao conteúdo de geografia estando dissociado de outras disciplinas. O uso da arte, da literatura, da música e da produção cinematográfica também se faz presente em outras disciplinas, então porque este uso não é realizado de uma maneira que integre as diferentes áreas do conhecimento em uma abordagem interdisciplinar.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais esclarecem que há diferença conceitual entre interdisciplinaridade e transversalidade. A interdisciplinaridade refere-se a uma abordagem epistemológica dos objetos do conhecimento - questiona a visão compartimentada disciplinar da realidade sobre a qual a escola tal como é conhecida, historicamente se constituiu. Refere-se por tanto a uma relação entre disciplinas; enquanto a transversalidade diz respeito principalmente à versão didática, a possibilidade de se estabelecer, na prática educativa, uma relação entre aprender na realidade e da realidade de conhecimentos teoricamente sistematizados e as questões da vida real.
Conforme Bovo (s/d, p.2) a interdisciplinaridade surgiu no final do século XIX como resposta a fragmentação da ciência propostas pelo positivismo, pois esta foi subdivida dando origem a diversas disciplinas. Com os reducionismos causados pelo positivismo a interdisciplinaridade surgiu a fim de restabelecer um diálogo entre as diversas áreas do conhecimento científico.
Apesar disto ainda hoje quando se fala em abordagem interdisciplinar nas escolas de modo geral esta se refere à Educação Ambiental. Ao contrário do que se aborda a interdisciplinaridade vai muito além da Educação Ambiental. Os Parâmetros Curriculares Nacionais apresentam inicialmente como temas transversais, a Ética, a Pluralidade Cultural, o Meio Ambiente, a Saúde e a Orientação Sexual que devem ser abordados nas escolas abrangendo todas as disciplinas em um trabalho coletivo do corpo docente e da comunidade. Somando-se a estes tem se ainda os Temas Locais que chamam atenção para as particularidades de onde a escola está inserida, pretendendo contemplar os temas de interesse específicos em diferentes escalas, Estado, cidade e/ou escola.
Faz-se necessário ressaltar que a possibilidade de inserção dos Temas Transversais nas diferentes áreas do conhecimento não é uniforme, uma vez que precisa-se respeitar as singularidade tanto dos diferentes temas quanto das áreas. Existem afinidades maiores entre determinadas áreas e determinados temas, como é o caso de Ciências Naturais e Saúde ou entre Historia, Geografia e Pluralidade cultural, em que a transversalidade é fácil e claramente identificável. Não considerar essas especificidades seria cair num formalismo mecânico. (PCN's, 1997).
No nosso entender é possível ir além da abordagem ambiental ou dos temas transversais propostos pelos PCN's e aproximar a Geografia de disciplinas como a Literatura, a História, a Língua Portuguesa, as ciências Naturais, a Sociologia – neste caso em se tratando do ensino médio – a partir do uso de textos literários, letras de músicas, filmes, e das artes visuais.
A interdisciplinaridade normalmente é compreendida como a prática de cruzamento de disciplinas ou de partes do conteúdo disciplinar que eventualmente ofereçam ponto de contato nas atividades letivas, dessa forma as práticas "interdisciplinares" acontece geralmente entre professores cujas disciplinas possuam afinidades e que coincidam na organização dos horários de aulas facilitando a "integração" das mesmas disciplinas (CAICINO, 2000 p.67/68).
Entretanto a interdisciplinaridade deveria ser uma proposta curricular elaborada em conjunto com todo o corpo escolar objetivando algo único que venha a oferecer perspectivas positivas na vida do aluno e melhorias no ensino e em sua qualidade de vida refletindo-se na comunidade em que este está inserido, sendo uma constante no cotidiano educacional. Por isto este estudo propõe uma aproximação ao cotidiano do aluno através da utilização de meios como a arte e a literatura buscando fazer com que os alunos percebam sua participação na construção do espaço geográfico, pois a geografia se faz no dia a dia, a partir das praticas e das relações sociais que se materializam no espaço.
O uso da música e das artes como recurso no ensino de geografia
Na atualidade se torna cada vez mais complexo a forma de se obter a atenção do aluno para os conteúdos referentes às matérias presentes em seus currículos, com a geografia não poderia ser diferente. Esta que por vezes se torna um amontoado de assuntos defasados distantes da realidade do aluno e de difícil compreensão faz com que o professor busque alternativas para facilitar o processo de ensino-aprendizagem.
Ir além da aula descritiva e distante exige um esforço do professor, para trazer para realidade do aluno àquilo que está sendo estudado; Para ir além das descrições -sejam elas aulas expositivas realizadas pelo professor, escritas no livro didático ou apresentadas nos mapas - quando procura estudar o porquê do espaço se apresentar de um ou de outro modo. (CALLAI, 1998, p.60), é preciso que o professor esteja disposto a realizar um trabalho que mude a forma como o ensino de geografia vem sendo ministrado no Brasil nas ultimas décadas.
Na busca para tornar as aulas mais atraentes muitos professores se baseiam e dão suporte as suas aulas através de recursos encontrados nas artes visuais e na música, no cinema e na literatura.
Um dos recursos utilizados que chama e muito a atenção dos alunos são as músicas. Estas em suas letras e melodias ressaltam de diversas maneiras os temas presentes no cotidiano do aluno ou aqueles que ajudaram a compor o cenário atual no qual este está inserido. A música é um importante recurso no ensino de geografia, pois tem um poder de penetração que une as várias culturas, diminuindo distância e diferenças.
A música pode ser um instrumento de difusão de idéias, valores e atitudes, e essas propriedades somadas a presença deste meio no cotidiano dos alunos, a torna um instrumento valioso no desenvolvimento de capacidades como contextualização, análise, expressão de idéias, produção de letras e músicas, construção de conhecimento e mudança de atitudes.
Podemos considerar que a música ouvida no dia-a-dia é instrumento educador, já que difunde idéias em letras e sentimentos em melodias. E por estar presente quase que integralmente na vida de cada um, a música pode se tornar um recurso eficaz na educação formal. Sobre os recursos que podem ser utilizados em sala de aula Vieira (1995) declara,
os recursos de ensino servem para a exposição do professor, para o trabalho independente do aluno, para a busca, exercitação ou problematização. Servem ao professor, ao aluno, para aprender ou controlar o aprendido.
Dentre os recursos utilizados pelo professor os visuais tendem a atingir maior êxito no aproveitamento dos mecanismos sensoriais, a junção dos recursos visuais aos recursos auditivos podem promover um aproveitamento e uma retenção de conhecimentos ainda maiores. E neste caso a música é um mecanismo completo, pois une tanto a parte visual (letras, vídeos-clipe) quanto sonora,
Um exemplo de utilização da música como recurso foi aplicado no Município de Duque de Caxias, RJ em uma escola do Terceiro Distrito, com o tema "Se todos fossem iguais a você", foi desenvolvido na escola através do Projeto Tom Jobim. O projeto propunha uma série de atividades em diferentes áreas do conhecimento, desde os Conteúdos de educação Artística com a representação de trechos de músicas do artista, que ressaltam pontos turísticos do Rio de janeiro, análise das formas físicas da Cidade dentro da disciplina geografia, a interpretação e a analise gramatical das letras das músicas entre outras atividades.
O projeto que teve duração de dois meses e culminou com a exposição dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos e apresentações artísticas, atuou em várias áreas do conhecimento demonstrando ao aluno como existem aplicabilidades entre os conteúdos que lhe são apresentados em classe e as produções culturais presentes em seu dia a dia. Dando lhes a oportunidade de um enriquecimento cultural através do contato com um gênero musical próximo de sua vida cotidiana.
Outros artistas podem ser citados como mecanismos para tornar as aulas mais interessantes. No entanto devemos atentar para o fato de que isto não é o ponto principal, a utilização da música ou de qualquer outro recurso didático tem como finalidade aproximar da realidade dos alunos os temas que serão expostos pelo professor, e utilizando a fala de Kaercher (1998, p.19) esclarecemos que,
o objetivo aqui não é simplesmente trabalhar com música em sala de aula. É chamar a atenção que as músicas ouvidas cotidianamente por nós e nossos alunos trazem a questão social/espacial em suas letras e que podemos começar alguns assuntos novos com esse "chamariz". Desperta mais a atenção do que iniciarmos nossa fala, ainda que bem intencionada e de cunho progressista, com aulas expositivas abstratas e distantes do mundo do aluno [...] o objetivo não é (só) tornar a aula mais "legal" [...] mas sim, a partir das letras, questionar o que o aluno já sabe a fim de superar visões de mundo conformistas, conservadoras ou ligadas somente ao senso comum.
De acordo com os PCN' as músicas podem ser utilizadas no ensino tendo como referencia três eixos:
1.
O eixo da produção - "expressão e comunicação em música, improvisação, composição e interpretação";
2.
O eixo da fruição/apreciação - "apreciação significativa em música: escuta, envolvimento e compreensão da linguagem musical";
Para o ensino especificamente de geografia o terceiro eixo é o que mais nos interessa a música como produção histórico-cultural, mas em uma proposta interdisciplinar devemos levar em consideração todos os eixos propostos, pois desta forma poderia haver uma integração entre diferentes disciplinas a partir da utilização de uma determinada composição.
Algumas músicas representam em suas letras momentos importantes no processo de construção do espaço geográfico, mesmo (e talvez principalmente) aquelas que têm temas específicos como os regionalismos ou retratam momentos da história política recente do Brasil.
Artistas como Raimundo Fagner, Zeca Baleiro, Zé ramalho, Chico Science com seu movimento Mangue Beach, os tradicionais Luiz Gonzaga e Dominguinhos tratam em suas letras das características da região do nordeste e das questões sociais especificas desta região, mas que não podem entendidas sem se considerar a totalidade complexa do território brasileiro.
Nos anos de 1980 um novo estilo musical surgiu, as músicas tinham conteúdo critico e contestavam a ditadura militar e as questões sociais, o estilo ficou conhecido como Rock Brasil e teve como expoentes Cazuza e Renato Russo com o grupo Legião Urbana. Os artistas representaram em suas composições a insatisfação com o momento pelo qual o país estava passando. No entanto as músicas não são tão agressivas e violentas, o rock usa uma linguagem mais poética e suas mensagens são geralmente implícitas na letra. Mesmo assim as letras destes artistas são muito ricas e nos permitem trabalhas diversos temas em sala de aula, temas como democracia, ideologia, globalização, segregação sócio espacial e outros.
Citamos artistas já consagrados na historia da cultura musical brasileira, mas existem outros gêneros que vêm crescendo muito nos últimos anos e com o qual os jovens muito se identificam - principalmente nas periferias das grandes cidades – o RAP (Rhythm and poetry), e o Hip Hop.
RAP surgiu entre os negros norte-americanos. É um gênero caracterizado por ritmo acelerado e quase inexistência de melodia e harmonia, com letras longas e entremeadas de gírias dos guetos e das gangues, que englobam a crítica social. Assim como o RAP, o Hip Hop também surgiu nos guetos e se baseia na denúncia de situações de injustiça social, de violência institucional, de preconceito e de descaso do estado em relação aos problemas sócio-culturais da periferia. Usam termos contundentes, e citam em suas letras nomes de pessoas e de instituições que no entender dos compositores praticam atos que prejudicam a população menos favorecida, contando estórias fictícias ou fatos reais de forma detalhista e integral. Por denunciar as injustiças sofridas pelas classes pobres, podemos considerar que estes gêneros atendem a esta classe, com a ideologia de não aceitação das condições vividas pela mesma e a mudança de atitudes que levariam à reversão de tais situações.
Estes gêneros musicais têm no Brasil representantes famosos como Marcelo D2, MV Bill, RZO, o Grupo O Rappa, Os Racionais MC's entre outros, trazem em suas letras a situação de miséria e abandono na qual a maioria das comunidades da periferia estão sujeitas, além de retratarem a forma preconceituosa e até mesmo violenta como a grande parte dos moradores destas é tratada.
O movimento Hip Hop não é composto apenas do estilo musical, fazem parte dele todo um trabalho de reconhecimento e valorização da cultura da periferia, a arte visual também é uma característica marcante deste movimento, a partir dos grafites os jovens expressam suas percepções do lugar vivido.
Neste ponto podemos relacionar o ensino de geografia e sua proposta interdisciplinar as artes visuais, obras de artistas como Candido Portinari, Tarsila do Amaral e até mesmo os mais tradicionais como Debret ou Rugendas podem ser utilizadas para abordar temas como escravidão, miscigenação, migrações, industrialização, consumismo e globalização e mesmos conceitos como de paisagem.
Artes visuais e geografia
As artes visuais permitem aos alunos realizarem uma abordagem mais subjetiva dos temas expostos, não ficando presos aos mecanicismos da abordagem racionalista. As obras de arte retratam momentos da sociedade em que o artista estava inserido podendo ser muitas vezes a única fonte de referência visual de determinados acontecimentos ou de momentos do processo de construção do espaço geográfico.
A esse respeito MARANDOLA JR (2008, p.1) explica que,
A capacidade de produzir arte faz parte daquilo que torna o homem único. A ciência moderna, no entanto, tratou de dissociar arte de pensamento e, com isso, ciência de arte. A Geografia, enquanto ciência moderna respeitou essa separação, embora em certos momentos tenha se utilizado de descrições artísticas como ilustração para seus trabalhos, em especial as literárias. Nas reestruturações epistemológicas contemporâneas, no entanto, reconduzir a Geografia para seu encontro com a Arte é tanto necessário quanto imprescindível para seu desenvolvimento. Isso não ocorre apenas pela incorporação da arte como documento, mas, sobretudo como símbolo e marca de um espaço-tempo cultural.
No processo histórico da formação da sociedade brasileira muitos foram os artistas que retrataram a paisagem, seja natural seja humanizada deste território em construção. Podemos citar como exemplo Johann Moritz Rugendas, pintor alemão que chegou ao Brasil em 1821, como desenhista da expedição do barão von Langsdorff, desentendeu-se com os demais componentes da expedição, abandonou seu compromisso e passou a viajar por conta própria, anotando em seus magníficos desenhos os diversos aspectos da paisagem, dos tipos e dos costumes da sociedade brasileira do século XIX. (LEVY et al, 1994, p.29)
As artes estiveram presentes retratando as transformações na paisagem em diferentes momentos históricos da sociedade brasileira e mesmo da sociedade mundial, haja vista a repercussão da tela Guernica (1937) de Pablo Picasso que retrata os horrores da Guerra Civil espanhola. Cabe ainda ressaltar ao aluno as datas significativas em que as obras foram produzidas.
A seguir selecionamos algumas telas que podem ser utilizadas como recurso no ensino de geografia:
O lavrador de Candido Portinari: Nesta obra Portinarichama a atenção para o trabalho do negro lavrador realçando o gigantismo de seus braços e pernas e a pequenez de sua cabeça. Isso nos leva a refletir que o negro era sempre associado a trabalhos braçais e nunca ou quase nunca e trabalhos intelectuais.
Café de Candido Portinari: É um exemplo de como as artes das décadas de 1930 e 1940, conservando o interesse pelo tema nacional, buscavam retratar as varias faces de um país miserável e sofrido,
Retirantes (1944) de Candido Portinari: Mostra uma família de retirantes nordestinos fugindo da seca, a tela representa uma forte critica social a situação de miséria e abandono das populações do nordeste brasileiro.
Operários de Tarsila do Amaral: A tela representa um portão de uma fábrica onde estão vários operários de diferentes tipos físicos, percebemos a miscigenação do povo brasileiro e a forte presença de tipos europeus demonstrando ainda a pequena presença do elemento negro, pouco utilizado no inicio do processo de industrialização brasileiro.
Embora estas produções artísticas, ricas em traços e cores, sirvam de subsídios para uma visualização de fatos vividos e percebidos deve-se sempre ressaltar ao aluno que o fato de servirem como objeto de estudo, estas telas foram produzidas por vezes com intuito apenas de expressar a angústia ou contemplação do artista diante de determinada paisagem ou de algum fato social. Servindo acidentalmente, sem objetivos curriculares, de base para muitos estudos, desde as séries iniciais ao fim do ensino médio.
A literatura e o ensino de Geografia.
Conforme dito na introdução deste estudo a Geografia vem se utilizando nas últimas décadas de diferentes recursos na tentativa de aproximar os conteúdos e temas do currículo aos alunos e assim fazer com que os mesmos sintam-se inseridos na produção/organização do espaço geográfico.
Na busca por aproximar o ensino de geografia a realidade do aluno alguns professores vem se utilizando de metodologias alternativas como a utilização da arte, da música, do cinema, mas é a literatura que tem tido especial destaque.
Teixeira (2008) citando Mello esclarece que a literatura tem sido utilizada, embora timidamente, por geógrafos para empreenderem análises espaciais desde o início do século XX, por ser um meio eficaz de investigação, que relata em diferentes escalas os lugares, o cotidiano, a paisagem, o mundo vivido. Por isso a literatura pode ser um meio eficaz de investigação para os geógrafos, pois os textos literários evocam a alma dos lugares, neles os escritores captam, interpretam e divulgam os sentimentos, o desempenho dos seres humanos, a fixação aos lugares, às viagens, o cotidiano. Entretanto a Geografia brasileira, diferentemente da Geografia internacional, continua negligenciando os textos literários como fonte de informação, apesar de toda riqueza espacial representada pela Literatura brasileira.
Apesar da literatura ainda ser pouco utilizada nas análises do espaço geográfico esta tem sido apontada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais como possibilidade interdisciplinar com a Geografia.De acordo com os PCN's é possível aprender Geografia a partir da leitura de autores consagrados de nossa literatura.
Acreditamos realmente que isto seja possível, pois a produção literária brasileira é rica em autores que retratam em suas obras diversas paisagens, regiões e aspectos sociais e culturais da sociedade brasileira em diferentes temporalidades.
Muitos são os literatos que podem nos auxiliar na busca pelo entendimento da construção do espaço geográfico como produto histórico e social, pois para entendermos o espaço como ele é hoje devemos estar atentos aos processos que influenciaram e que de alguma forma continuam influenciando ainda hoje a produção do espaço como totalidade.
Autores como José de Alencar e o romance indianista, O Guarani, que está inserido na corrente filosófica do Romantismo baseados nas idéias do pensador iluminista Jean Jacques Rousseau onde o Homem é visto como ser originalmente puro sendo corrompido pela sociedade, pode ser utilizado tanto pela Geografia quanto pela História, Sociologia ou Filosofia. Alencar tem outras obras que também podem ser utilizadas pela Geografia, o autor não se limitou a escrever romances classificados como indianistas há em sua produção literárias romances regionais e urbanos, como O gaúcho e Senhora respectivamente.
Embora tenha sido feita referência à obra de José de Alencar, classificada na Literatura como Romântica, os estudos entre Geografia e Literatura tem sido realizados principalmente com autores das correntes Realista e Naturalista, justamente por estes buscarem dar a suas obras um caráter documental aproximando-as ao máximo da realidade. Temos como autores destas correntes Machado de Assis, Aluisio de Azevedo, Lima Barreto e outros que representam à cidade do Rio de Janeiro em seus romances.
Conforme Teixeira (2007) no romance naturalista O Cortiço, Aluísio de Azevedo traça um painel da sociedade brasileira representando em seus personagens os fatos sociais e políticos da época. O romance retrata a transformação na organização espacial na Cidade do Rio de Janeiro, particularmente do bairro de Botafogo, a partir a construção d'O Cortiço. O autor descreve minuciosamente o cotidiano dos habitantes deste tipo de habitação popular, suas expectativas, seus hábitos, seus sentimentos em relação àquele ambiente, enfim seu mundo vivido. Azevedo dá a obra um enfoque de denúncia social, denuncia a miséria, a prostituição e a exploração, aponta as falhas do sistema ao denunciar a exploração dos cortiços, o romancista utilizou suas obras como veículos de divulgação do que se queria combater: a especulação imobiliária e o enriquecimento dos proprietários das habitações coletivas. Podemos afirmar que a obra de Azevedo é um importante meio para entendermos a produção do espaço geográfico carioca no final século XIX.
No romance O triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto podemos identificar uma critica ao nacionalismo absurdo representado na figura de Policarpo Quaresma, e também ao nacionalismo extremo que pode se tornar perigoso nas mãos de ditadores autoritários, por isso alguns críticos literários acreditam que o livro de Lima Barreto escrito em 1911 é uma profecia sobre os regimes autoritários nazi-fascistas que cresceriam a partir de 1930. Em seus romances Lima Barreto também descreve o subúrbio carioca sua população e seu modo de vida e faz uma critica a forma como o
Estado age em relação a essa parcela do espaço urbano.
No romance já citado o autor descreve o cotidiano do subúrbio, sua paisagem, a forma urbana a maneira como as casas são construídas, o movimento das pessoas andando pelas ruas, o trem que leva os trabalhadores do subúrbio para o centro, mas Barreto também critica a ausência dos municipais com a falta de infra-estrutura nos subúrbios. No romance Clara dos Anjos o autor nos diz que o "subúrbio é o lugar dos infelizes". Veja nestes fragmentos como Lima Barreto descreve o subúrbio em O triste fim de Policarpo Quaresma (p.86-87) :
Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação de cidade. A topografia do local, caprichosamente montanhosa, influi decerto para tal aspecto, mais influíram, porém os azares das construções.
Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento, e conforme as casas as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com ódio tenaz e sagrado.
No romance Clara dos Anjos (p.52- 55) o literato segue mostrando o processo de ocupação do subúrbio carioca e a falta do Estado neste processo.
O subúrbio propriamente dito é uma longa faixa de terra que se alonga, desde o Rocha ou São Francisco Xavier até Sopopemba tendo para eixo a linha férrea da Central.
Para os lados, não se aprofunda muito, sobretudo quando se encontra com colinas e montanhas que tenham a sua expansão; mas, assim mesmo, o subúrbio continua invadindo, com as azinhagas e trilhos, charnecas e morrotes. Passa-se por um lugar que supomos deserto, e olhamos, por acaso, o fundo de uma grota, donde brotamainda árvores de capoeira, lá damos com um casebre tosco , que para ser alcançado torna-se preciso descer uma ladeirota quase a prumo. [...]
Há casas, casinhas, casebres, barracões, choças por toda a parte onde possa fincar quatro estacas de pau e uni-las por paredes duvidosas. Todo o material para essas construções serve: são latas de fósforos distendidas, telhas velhas, folhas de zinco, e, para as nervuras das paredes a taipa, o bambu, que não é barato. [...]
Mais ou menos é assim o subúrbio, na sua pobreza e no abandono em que os poderes o deixam. [...]
O Rio de Janeiro, que tem, na fronte na parte anterior, um tão lindo diadema de montanhas e arvores, não consegue faze-lo coroa e cingi-lo todo em roda. A parte posterior, como se vê não chega a ser um neobarbante que prenda dignamente o diadema que lhe cinge a teta olímpica.
Nos fragmentos citados dos romances de Lima Barreto destacamos as questões urbanas que mostram como a expansão da cidade em direção ao subúrbio segregou espacialmente a população mais pobre, e como a ausência do Estado neste processo de expansão ocupação do subúrbio carioca lhe conferiu características especificas. No entanto a contribuição deste autor para o ensino de geografia e das demais disciplinas é muito maior. Lima Barreto escreveu romances que denunciam a escravidão, criticam o ufanismo republicano e maneira como as mulheres eram educadas. Lessa (2001, p.224) nos fala que Lima Barreto em seus romances,
não se especializa nem é atraído pelos transgressores. Fala dos cinzentos e "não-folclorizaveis", fala dos anônimos, que sustentam e mantêm viva a cidade. Fala com carinho e sem mistificação do povo dos subúrbios e do escalão humilde da pirâmide social.
Diversos outros literatos representaram a cidade do Rio de Janeiro em suas obras para se fazer uma leitura do espaço geográfico da cidade e das relações sociais que se desenvolviam em um momento de construção da sociedade brasileira, sociedade esta que buscava uma identidade nacional o Rio de Janeiro foi referencia principal da literatura nacional. A cidade esta presente nas obras A moreninha de Manoel de Macedo, Senhora de José de Alencar, O encilhamento de visconde de Taunay, Casa de Pensão e O Cortiço de Aluisio de Azevedo entre outras.
Mas há também os romances ditos regionalistas como Grandes Sertões Veredas d Guimarães Rosa, Vidas Secas de Graciliano Ramos, Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto e Meninos do Engenho de José Lins do Rego que retratam a região nordeste, o sertão e o povo nordestino e os diversos problemas sociais da região. Temos ainda Érico Veríssimo com sua obra o Tempo e o vento que trata da formação do Rio Grande do Sul, que nos permite fazermos uma leitura das questões sociais, da grandiosidade do território brasileiro e de sua diversidade natural e cultural.
Em Vidas Secas Graciliano Ramos chama a atenção do leitor para as adversidades naturais e as injustiças sociais as quais o povo nordestino está exposto. O autor nos mostra os caminhos que seus personagens percorrem e como sofrem com a aridez do lugar, a exploração e o abuso por parte do poder dos coronéis, a humilhação cotidiana, e o pior a escassez de água e comida. A obra de Graciliano Ramos nos permite realizar uma aproximação com diversas disciplinas, assim como todas as obras literárias citadas neste estudo, pois as mesmas representam momentos da construção da sociedade brasileira que com sua integração com o meio físico e a partir das relações sociais estabelecidas pelos seus membros imprimiram ao longo do tempo características especificas ao espaço geográfico brasileiro.
A partir do exposto acreditamos que os textos literários sejam eles do século XVIII, como os de José de Alencar, sejam do século XX como os de Lima Barreto ou Graciliano Ramos são importantes fontes de informação geográfica além de nos permitir uma interação com outras áreas do conhecimento cientifico.
Considerações Finais
Tendo em vista que ainda hoje o ensino de geografia é visto como uma coisa chata e enfadonha onde os conteúdos são apresentados de forma fragmentada e distante da realidade do aluno este estudo se propôs a apresentar mecanismos que permitissem uma maior interação entre o aluno e o professor e destes com o conteúdo a ser apresentado. Sim porque muitas vezes o conteúdo das aulas é chato e enfadonho para o professor também que fica preso às abordagens tradicionais de repetição e memorização.
Por isso apresentamos em nosso estudo alguns recursos que pensamos ser de grande ajuda nesta empreitada, acreditamos que o processo de ensino aprendizagem deva se dar de uma forma interdisciplinar para que o aluno possa ter uma visão da totalidade. Para que isso seja alcançado a arte, a música e a literatura nos são de grande ajuda uma vez que através de suas representações permitem ao aluno realizar interpretações subjetivas onde podem expressar seus entendimentos sobre determinados assuntos de maneira mais espontânea. Acreditamos que a partir do uso da arte, e da literatura os alunos consigam relacionar os fatos apresentados em Geografia com as outras áreas do conhecimento, que tenham a noção de que o espaço Geográfico é construído por todos nós nas nossas praticas diárias e que ele vive isso cotidianamente, construindo e reconstruindo a cada ação o lugar onde vive, trabalha, estuda e se diverte,
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Fonte:
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