A lagarta e a borboleta
(por Kelly C Assis)
Era uma vez, uma lagartinha solitária e esquálida que tortuosamente seguia seu renitente caminho sem cessar. Ela, em sua restrita capacidade de entender o mundo e seu destino, perguntava ao infinito porque entre todas as criaturas hábeis, lépidas, inteligentes, prodigiosas e graciosas da natureza ela teria que acumular tantos entraves para possuir uma existência esplendorosa.
Assim, a passos bem lentos e contumazes ela ia perseguindo o que mais lhe dava prazer em sua pobre vida rastejante: degustar apetitosas e entorpecedoras folhas de lírio.
Neste hábito ela gastou grande parte de sua existência como se isto não só suprisse suas necessidades orgânicas , mas lhe preenchesse um vazio inconsolável que nem mesmo ela conseguia interpretar.
Certo dia, estava em sua cotidiana peregrinação rumo a sua satisfação oral e psicodélica, quando avistou uma pequenina borboleta , já havia visto em sua existência diversas borboletas e além dos lírios, eram aqueles seres voadores surpreendentemente os únicos capazes de encantar e iluminar seus olhos de tal forma, que quando as viam era como se aquelas criaturas quisessem lhe dizer algo muito profético, somente isto a fazia parar, numa admiração tal, como se nada mais ao redor tivesse sentido.
Esta súbita e misteriosa borboleta, possuía algo que a fazia diferente de todas as outras, ela não era a mais bela, nem a esteticamente mais suntuosa, pelo contrário era bem simples em suas formas , mas detinha um brilho que ofuscava muitos olhares e egos , com uma energia tão excêntrica e poderosa que fazia com que cada ato seu, fossem parecidos ao pronunciar maestral das palavras bem ditas – aliás, quem são as palavras....
Contudo, o que a tornava realmente especial para a nossa incompreendida lagartinha, foi a prestimosa atitude de querer saber de sua rastejante vida, dizia que queria entender como era o olhar dos seres terrestres , dos que viam a vida sob um prisma linear – ardilosa borboletinha, até parece que se esquecera de suas raízes-, mal sabia a lagartinha que neste despretensioso encontro oferecido pelo destino guardava muita intenção para responder a suas lamúrias existenciais.
Então, a borboleta e a lagarta começaram a construir uma bela história juntas , num mútuo aprendizado ,onde o principal da relação das duas era entender a vida e seu sentido.. Não mais a lagarta se sentiu tão só e vazia. A borboleta provocava a lagarta incessantemente como a fazê-la encontrar as respostas de suas perguntas dentro dela mesma assim como o preenchimento de seu vazio interior.
A lagarta começou a sentir uma mudança dentro de si e uma pulsão de vida que jamais tinha experimentado, sentia -se mais forte , mais segura e alimentada por um pressentimento de que algo muito bom estava por vir.
Cheia de força e de poder de criação começou a brotar de seu corpinho uma espécie de mel branco que secava logo que entrava em contato com o ar, a borboleta sabendo da real função daquele fluido, decidira revelar a lagarta o que em breve lhe aconteceria ...contando-a sobre sua experiência metamorfoseante.
A lagarta mal pode se conter em suas dezenas de perninhas que tão logo se transformariam em belas asas....
Emocionadas , cada uma foi tomar posse da função que a vida as designou ...
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