segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Educar para um novo poder

Educar para um novo poder

Por Marilza de Melo Foucher

O poder existe desde que o planeta Terra foi habitado. E é exercido em todos os tipos de organização social, em toda a relação humana. Não existe sociedade sem poder, mesmo nas formas que a antropologia política chama de primitivas. As relações de poder nascem naturalmente dentro de toda sociedade. O poder político vai surgir de modo universal com o nascimento do Estado, e ele terá a responsabilidade de definir as regras sociais que estabelecem as relações entre os concidadãos. Ele repousa na vontade de organizar, proteger e assegurar a vida em sociedade. Anteriormente, o poder pertencia exclusivamente a alguns homens. Com o Estado, nascem as instituições e os regimes políticos modernos que, por princípio, foram criados para por fim ao sistema de poder pessoal.

O poder é uma palavra completamente rebelde para se definir, ela pode se apresentar como um nome comum que se esconde atrás de um nome próprio PODER. O Poder designa uma capacidade de agir direta e indiretamente sobre as coisas ou sobre as pessoas, sobre objetos, sobre as vontades. O Poder de ter a capacidade de fazer alguma coisa, o Poder de como fazer. O filósofo e psicólogo francês Michel Paul Focault, foi quem melhor analisou como os mecanismos de poder operam na sociedade. Sua reflexão sobre o poder vai muito mais além da esfera publica e política, ele aprofunda a discussão sobre o poder em outros âmbitos da vida social, seja na família, na vida de um casal, na relação com os companheiros (as), nos distintos espaços da vida como no trabalho, no partido político, numa organização social, enfim em qualquer espaço de interação sócio-individual. Para resumir, segundo Foucault o poder estar na base de todas as nossas práticas sociais.

O poder não é algo que possuímos, é uma relação entre duas ou mais pessoas. Logo que as relações se estabelecem – por exemplo, entre dois pareceiros – as forças de que cada um dispõe geram um campo de poder, que pode ser exercido por meio do enfrentamento ou do diálogo, criando-se uma correlação de forças. O poder está presente numa multitude de relações microsociais e jamais será exercido sem resistência. Mas o poder obedece também a regras sociais, umas são institucionais outras sócio-culturais e por vezes interiorizadas pelos indivíduos. Daí certos comportamentos podem ser adotados espontaneamente pela sociedade que passa a julgar normal, por exemplo, certo abuso do poder. O Brasil está cheio de exemplos!

O poder político no Brasil

A sociedade brasileira já foi caracterizada como uma estrutura autoritária de poder. Durante séculos, os governantes bloquearam a participação e criação de direitos. A burocracia brasileira nunca foi uma forma de organização no sentido de agilizar o funcionamento da maquina estatal. Ao contrário, ela instala uma forma de poder altamente hierarquizado. Tal como uma cadeia de comando, quem está no nível superior detém os conhecimentos – que devem permanecer ocultos para seus subordinados, que também têm seus subalternos. Privados de conhecimentos, eles não inovam e nem fazem uso de criatividade, tendo em vista que foram contratados para obedecer às ordens dos escalões superiores. Assim se caracterizou o poder dos altos funcionários públicos, na lógica de que quem detém o saber detém o poder. Quanto mais ignorante é o povo, mas fácil será de manipulá-lo.

O poder burocrático exercido pela hierarquia é dificilmente assimilado com o poder democratizado, no qual, o cidadão funcionário age em função da igualdade dos direitos e se torna um defensor do bom funcionamento da máquina estatal. Infelizmente, essa concepção de burocracia como forma de poder vai se instalar também em alguns partidos políticos.

O poder na historia política do Brasil vai ser praticado como uma forma de tutela e de favor, sem mediações políticas e sociais. O governante é sempre aquele que detém o poder, o saber sobre a lei e sobre o social, privando os governados dos conhecimentos, criando-se assim uma relação clientelista e de favor.

Essa prática de poder vai contribuir para propagação do vírus da corrupção em todos os níveis de poder. Infelizmente, no imaginário popular o poder político vai ser assimilado como sinônimo de corrupção. O abuso de uso da máquina pública faliu o Estado Brasileiro. Há muitos anos, tenta-se restaurar um verdadeiro Estado democrático e cidadão. Este é ainda o maior desafio para a República Brasileira.

Relação de poder

A questão é de saber o que queremos fazer com o poder que cada um de nós pode exercer sobre o outro(a). Como cada um de nós se relaciona com o poder. Hoje, já existem vários estudos sobre como aprofundar o sistema democrático no Brasil. Entretanto, não se analisa como o poder é distribuído na sociedade. As desigualdades sociais expressam também desigualdades de poder.

Conquistamos cidadania civil (direito de votar), mas a cidadania política ainda é restrita. Se ampliarmos os espaços para exercer nossa cidadania, estaremos contribuindo para a emergência de uma sociedade civil mais organizada e combativa. Com isto, teríamos a capacidade de um maior controle social sobre o Estado. Este poder dos cidadãos organizados e legitimamente representados na esfera publica pode ser fértil para o fortalecimento da democracia e quem sabe pode nos educar para mudar nossa relação com o poder e para o seu exercício. Eleger alguém quer dizer exercer um poder de escolher os ocupantes temporários do governo. Entretanto, não devemos esquecer que a democracia é fundada na noção dos direitos entre governados e governantes. Daí a exigência de vigilância do poder político.

O papel preponderante da educação

Vale relembrar o que o filósofo e psicólogo Foucault dizia: “Todo lugar de exercício do poder é ao mesmo tempo um lugar de formação do saber”. A construção do poder democrático e ético no Brasil é um desafio a ser vencido e deveria ser ensinado como educação cívica nas escolas públicas (do ensino fundamental até o ensino médio), para que desde cedo nossos jovens possam aprender o que é o Poder, qual a função do poder político, quais são as qualidades necessárias para o exercício do poder político. Se não somos educados para lidar com o poder, podemos ser facilmente contaminados pelo vírus da corrupção.

Daí a necessidade de os jovens brasileiros aprenderem o que representa o Estado, essa abstração teórica criada pela inteligência humana. O que é um Bem Público, qual a finalidade dos serviços públicos, e, como cidadão ou cidadã, quais são os deveres e obrigações frente à República e como exigir seus direitos. Apreender que é o Estado e sua relação com a sociedade civil é fundamental para construir um poder político democrático. O cidadão não é um consumidor dos serviços prestados pelo Estado, é um sujeito com direitos e deveres. Como concidadãos, eles devem pagar os impostos corretamente, e devem exigir que o orçamento público oriundo dos impostos possa ser aplicado com critérios e honestidade. Os governantes devem ser cobrados se as metas programadas nos planos não forem cumpridas, tendo em vista as verbas alocadas. A constituição brasileira assegura ao contribuinte-cidadão o direito de exigir transparência dos gastos públicos no plano municipal. “As contas dos municípios ficarão, durante sessenta dias, anualmente à disposição de qualquer contribuinte, para exame e apreciação, o qual poderá questionar-lhes a legitimidade, nos termos da lei”.

Enquanto cidadãos (ãs), devemos guardar a capacidade de nos revoltar, de nos indignar frente ao poder corrompido e às injustiças ligadas ao modo de lidar com o poder. Educar-se para o exercício do poder é uma tarefa prioritária para todos que exercem, na esfera publica ou privada, algum poder. E para o cidadão e cidadã, uma boa formação de educação cívica para entender o poder político e a coisa pública passa a ser urgente e prioritário. Para poder decifrar a realidade em que ele vive, saber exercer seus direitos e cumprir com as obrigações face ao Estado democrático.

A verdadeira revolução é aquela que tem um papel construtivo e educador. As reformas não reformam quando os atores do desenvolvimento não estão preparados ao exercício da cidadania e do poder. Nesse sentido, o futuro governo de Dilma, deveria tirar aprendizado da metodologia de educação popular do saudoso Paulo Freire. A educação popular fornece instrumentos pedagógicos para que seja possível codificar e decodificar a realidade brasileira. A luta contra a exclusão começa quando o excluído vira sujeito-cidadão e acaba participando ativamente no processo coletivo de mudanças.

Gibi da Turma da Mônica ...

http://rapidshare.com/files/435339308/Revista_da_Turma_da_M__nica_sobre_drogas_2_.pdf

A borboleta e o passarinho




A borboleta e o passarinho

Por Jéssica Poliane dos Santos

E de ladinho, sussurrou...
Menina, diz para o meu amor:

_ sou colorida e sei voar...
Sei voar e sou colorida...
Que na pétala daquela flor, eu o estou a esperar...

Borboleta graciosa, colorida e parceira do vento...
Para quem, me diga, se refere o seu lamento?

Para aquele pássaro verde e azul que não para de voar,
Por cima das flores desse jardim,
Que você acabou de plantar...

Diga ele, que por causa desse encanto,
Polens já não sei mais retirar...
Vivo em função de treinar a voz,
Para também cantar e encantar!

Borboleta basta apenas voar...
Que as suas asas coloridas,
Vai a ele encantar...
Peça ajuda a flores e ao vento,
E acabe com esse lamento...
Disseram-me, porém...
Que borboleta e pássaros
Não convém...
Tento então piar bem alto
Pra servir pro bem...


Borboleta colorida!
Mas assim não pode ser...
Se o pássaro que voa alto
Não enxergar você!
È que ele é prepotente
E não é de te merecer!!!

Continue colorida entre as flores...
Distribua o pólen
E floresça o mundo
Seja você, e não mais além
Que o mundo colorido
Saberá que é você
E o pássaro prepotente
Reconhecerá,
E saberá te amar...
Assim, simples..você

O poder da imagem

"A grande mágoa de minha vida é nunca ter feito quadrinhos"

Pablo Picasso



UM POUCO SOBRE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS*

por Gilson César Ribeiro, em 2005

Comumente percebidos como arte menor, os quadrinhos não recebem a mesma atenção dada a linguagens como a literatura, a fotografia, o vídeo e mesmo o cinema que, ao contrário do que pensa uma imensa maioria, se alimentou muito mais destes do que o contrário. Para pensarmos em profundidade esta linguagem remontaremos aos primórdios da humanidade quando, ainda antes de chegarem à linguagem verbal, nossos antepassados desenhavam nas paredes das cavernas. Desenhos desse tipo existem nas cavernas de Lascaux, na França, assim como em outros lugares do mundo. Neles, as imagens obedecem a uma seqüência – assim como nos quadrinhos.
Alguns antropólogos dizem que os famosos desenhos nas cavernas pré-históricas eram um "ensaio de controlar magicamente o mundo". Talvez esteja aí uma tendência óbvia entre acadêmicos em atribuir aos primitivos tão-somente motivações supersticiosas, enquanto possivelmente estes nossos antepassados desfrutaram a impressão de construir pequenos mundos, representando graficamente as vivências por que passavam na vida real, no que foi o primeiro exercício de abstração da humanidade. É inimaginável o quanto este acontecimento contribuiu para a evolução do pensamento humano, pois ao se ver ali, desenhado na parede da caverna, correndo com suas longas pernas e empunhando sua lança na perseguição de uma caça ele pôde contemplar o seu próprio modus-vivendi, deflagrando então uma chance inicial de refletir seu estar-no-mundo.

Cada um dos sinais gráficos elementares com que se representam os vocábulos na língua escrita, ou seja, a letra, originou-se da figuração em desenho. Isto é plenamente constatável no antigo Egito e na China, por exemplo. Mas não são os únicos exemplos. Hoje, as letras japonesas (conforme a grafia chinesa de cantão, kanji) são as mais próximas do figurativismo inicial das letras. A figuração gráfica de "gente", por exemplo, é como que um Y de cabeça para baixo, lembrando as pernas e o corpo do elemento indicado em sua própria significação. Grosso modo: para desenvolver a escrita, primeiro a humanidade aprendeu a desenhar. E aprendeu a desenhar antes mesmo de conseguir falar.

No ano 113, Trajano, imperador romano, mandou construir uma coluna, onde suas batalhas eram contadas em vários desenhos feitos em espiral. A coluna hoje leva seu nome e quem a vê pode constatar que as imagens obedecem a uma ordem e estão relacionadas umas com as outras, contando uma história.

No acervo do Trinity College Library, em Cambridge, há uma iluminura do Apocalipse, feita aproximadamente em 1230, em que se vêem textos a "brotar" das bocas de vários personagens, numa ocorrência antiga da idéia moderna de "balão", própria do universo dos quadrinhos. Existem registros parecidos em imagens produzidas por civilizações americanas pré-colombianas.

Na idade média surge a mais popular "história em quadrinhos" do mundo cristão: a via sacra, os passos da paixão de Cristo, que podem ser vistos no interior das paredes laterais de qualquer igreja católica até hoje. Cenas da vida de São Zenóbio, retratadas sequencialmente pelo gênio renascentista Sandro Botticelli, encerram uma narrativa.

Ignorando várias outras demonstrações, para avançarmos muito tempo na História até mais ou menos o ano de 1806, chegaremos a um antecendente da história em quadrinhos sem palavras em O Monje Pedro de Zaildívia captura o bandido maragato
, série pintada a óleo pelo artista barroco espanhol Francisco José de Goya y Lucientes.

Cerca de duas décadas depois, em 1827, o suíço Töpffer, inspirado nas gravuras seqüenciais do artista inglês William Hogarth, do início do século 18, produziu aquilo que mais se aproxima da moderna história em quadrinhos. Goethe foi entusiasta de primeira hora de seu trabalho, encorajando o autor a publicá-las. "São os inocentes antepassados dos sonhos manufaturados de hoje", salientou o historiador da arte E. H. Gombrich.

Töpffer escreveu também um pequeno tratado sobre fisiognomonia, onde, em alguns trechos, parece profético: "Há duas maneiras de escrever histórias: uma em capítulos, linhas e palavras, e a isso chamamos 'literatura'; ou, alternativamente, por uma sucessão de ilustrações, e a isso chamamos 'história ilustrada'. A história ilustrada à qual a crítica de arte não dá atenção e que raramente preocupa os letrados sempre exerceu grande atração. Mais, na verdade, que a própria literatura, pois além do fato de que há mais gente capaz de ver do que de ler, agrada às crianças e às massas, parcelas do público que seria desejável promover. Com a dupla vantagem de apresentar concisão e clareza, a história ilustrada, em condições de igualdade, acabará por suplantar a outra, por dirigir-se com maior agilidade a uma maior número de mentes; e também porque, em qualquer contexto, aquele que emprega um método direto leva vantagem sobre os que falam por capítulos." Walt Disney confirmou tais vaticínios um século depois.

Quase 70 anos mais tarde os métodos de criação artística sofrem transformações radicais com a implantação da indústria, pois a arte passa a ser matéria-prima para um novo tipo de mercadoria a ser oferecida ao público consumidor. Com o desenvolvimento populacional urbano aumenta a necessidade de se transmitir mensagens a um número cada vez maior de pessoas. O jornal expressou nitidamente a nova situação do indivíduo nos grandes centros. O arranjo dos textos, a distribuição das diversas reportagens numa página, a abreviação ou destaque dado a determinados assuntos procuram atender uma nova perspectiva de consumo.

Em fins do século XIX, era acirrada a disputa entre os dois líderes da imprensa estadunidense, Pulitzer e Hearst. Pulitzer deu oportunidade a um desenhista de quadrinhos, Richard Outcault, e passou a apresentar no jornal New York World o seu personagem Yellow Kid. Imagens em seqüencia já existiam na imprensa até então, mas levavam os textos no rodapé das ilustrações. Com Yellow Kid o texto surge dentro da própria imagem, circundado por uma linha que se fechava em um rabicho apontado para a boca do personagem. Tal técnica faz parte das maiorias das histórias até hoje, é o "balão". A palavra torna-se parte da ação e gera um tempo narrativo que subverte a tradição literária. Refinadíssima operação semiótica, em que, se a escrita regressara à sua condição primeva de desenho, a própria palavra escrita, através do recurso-“balão”, torna-se elemento plástico.


*texto inacabado