"A grande mágoa de minha vida é nunca ter feito quadrinhos"
Pablo Picasso
UM POUCO SOBRE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS*
por Gilson César Ribeiro, em 2005
Comumente percebidos como arte menor, os quadrinhos não recebem a mesma atenção dada a linguagens como a literatura, a fotografia, o vídeo e mesmo o cinema que, ao contrário do que pensa uma imensa maioria, se alimentou muito mais destes do que o contrário. Para pensarmos em profundidade esta linguagem remontaremos aos primórdios da humanidade quando, ainda antes de chegarem à linguagem verbal, nossos antepassados desenhavam nas paredes das cavernas. Desenhos desse tipo existem nas cavernas de Lascaux, na França, assim como em outros lugares do mundo. Neles, as imagens obedecem a uma seqüência – assim como nos quadrinhos.
Alguns antropólogos dizem que os famosos desenhos nas cavernas pré-históricas eram um "ensaio de controlar magicamente o mundo". Talvez esteja aí uma tendência óbvia entre acadêmicos em atribuir aos primitivos tão-somente motivações supersticiosas, enquanto possivelmente estes nossos antepassados desfrutaram a impressão de construir pequenos mundos, representando graficamente as vivências por que passavam na vida real, no que foi o primeiro exercício de abstração da humanidade. É inimaginável o quanto este acontecimento contribuiu para a evolução do pensamento humano, pois ao se ver ali, desenhado na parede da caverna, correndo com suas longas pernas e empunhando sua lança na perseguição de uma caça ele pôde contemplar o seu próprio modus-vivendi, deflagrando então uma chance inicial de refletir seu estar-no-mundo.
Cada um dos sinais gráficos elementares com que se representam os vocábulos na língua escrita, ou seja, a letra, originou-se da figuração em desenho. Isto é plenamente constatável no antigo Egito e na China, por exemplo. Mas não são os únicos exemplos. Hoje, as letras japonesas (conforme a grafia chinesa de cantão, kanji) são as mais próximas do figurativismo inicial das letras. A figuração gráfica de "gente", por exemplo, é como que um Y de cabeça para baixo, lembrando as pernas e o corpo do elemento indicado em sua própria significação. Grosso modo: para desenvolver a escrita, primeiro a humanidade aprendeu a desenhar. E aprendeu a desenhar antes mesmo de conseguir falar.
No ano 113, Trajano, imperador romano, mandou construir uma coluna, onde suas batalhas eram contadas em vários desenhos feitos em espiral. A coluna hoje leva seu nome e quem a vê pode constatar que as imagens obedecem a uma ordem e estão relacionadas umas com as outras, contando uma história.
No acervo do Trinity College Library, em Cambridge, há uma iluminura do Apocalipse, feita aproximadamente em 1230, em que se vêem textos a "brotar" das bocas de vários personagens, numa ocorrência antiga da idéia moderna de "balão", própria do universo dos quadrinhos. Existem registros parecidos em imagens produzidas por civilizações americanas pré-colombianas.
Na idade média surge a mais popular "história em quadrinhos" do mundo cristão: a via sacra, os passos da paixão de Cristo, que podem ser vistos no interior das paredes laterais de qualquer igreja católica até hoje. Cenas da vida de São Zenóbio, retratadas sequencialmente pelo gênio renascentista Sandro Botticelli, encerram uma narrativa.
Ignorando várias outras demonstrações, para avançarmos muito tempo na História até mais ou menos o ano de 1806, chegaremos a um antecendente da história em quadrinhos sem palavras em O Monje Pedro de Zaildívia captura o bandido maragato
, série pintada a óleo pelo artista barroco espanhol Francisco José de Goya y Lucientes.
Cerca de duas décadas depois, em 1827, o suíço Töpffer, inspirado nas gravuras seqüenciais do artista inglês William Hogarth, do início do século 18, produziu aquilo que mais se aproxima da moderna história em quadrinhos. Goethe foi entusiasta de primeira hora de seu trabalho, encorajando o autor a publicá-las. "São os inocentes antepassados dos sonhos manufaturados de hoje", salientou o historiador da arte E. H. Gombrich.
Töpffer escreveu também um pequeno tratado sobre fisiognomonia, onde, em alguns trechos, parece profético: "Há duas maneiras de escrever histórias: uma em capítulos, linhas e palavras, e a isso chamamos 'literatura'; ou, alternativamente, por uma sucessão de ilustrações, e a isso chamamos 'história ilustrada'. A história ilustrada à qual a crítica de arte não dá atenção e que raramente preocupa os letrados sempre exerceu grande atração. Mais, na verdade, que a própria literatura, pois além do fato de que há mais gente capaz de ver do que de ler, agrada às crianças e às massas, parcelas do público que seria desejável promover. Com a dupla vantagem de apresentar concisão e clareza, a história ilustrada, em condições de igualdade, acabará por suplantar a outra, por dirigir-se com maior agilidade a uma maior número de mentes; e também porque, em qualquer contexto, aquele que emprega um método direto leva vantagem sobre os que falam por capítulos." Walt Disney confirmou tais vaticínios um século depois.
Quase 70 anos mais tarde os métodos de criação artística sofrem transformações radicais com a implantação da indústria, pois a arte passa a ser matéria-prima para um novo tipo de mercadoria a ser oferecida ao público consumidor. Com o desenvolvimento populacional urbano aumenta a necessidade de se transmitir mensagens a um número cada vez maior de pessoas. O jornal expressou nitidamente a nova situação do indivíduo nos grandes centros. O arranjo dos textos, a distribuição das diversas reportagens numa página, a abreviação ou destaque dado a determinados assuntos procuram atender uma nova perspectiva de consumo.
Em fins do século XIX, era acirrada a disputa entre os dois líderes da imprensa estadunidense, Pulitzer e Hearst. Pulitzer deu oportunidade a um desenhista de quadrinhos, Richard Outcault, e passou a apresentar no jornal New York World o seu personagem Yellow Kid. Imagens em seqüencia já existiam na imprensa até então, mas levavam os textos no rodapé das ilustrações. Com Yellow Kid o texto surge dentro da própria imagem, circundado por uma linha que se fechava em um rabicho apontado para a boca do personagem. Tal técnica faz parte das maiorias das histórias até hoje, é o "balão". A palavra torna-se parte da ação e gera um tempo narrativo que subverte a tradição literária. Refinadíssima operação semiótica, em que, se a escrita regressara à sua condição primeva de desenho, a própria palavra escrita, através do recurso-“balão”, torna-se elemento plástico.
*texto inacabado

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